segunda-feira, 29 de março de 2010

BRINCAR - Vygotsky e a contemporaneidade

Foto de família

Por Bianca Solléro

Antigamente, lembro-me bem, a gente brincava na rua sem medo de nada. Minha mãe implicava apenas para não sujar a roupa nova que ela comprava para a gente visitar a casa da vovó. Aí era hora de juntar eu, minhas duas irmãs e um bando de primos. Nossas aventuras iam desde jogar baralho a ficar presos no elevador.

A casa da vovó era uma delícia. Na verdade era apartamento, em Brasília, mas tinha uma quadra gigante onde a gente jogava bola e um escorregador onde uma vez cortei meu pé e tive medo de pegar tétano. Tinha também um pé de amora, onde a gente se lambusava até! Nessa época já tínhamos video-game, mas só um primo meu que ficava grudado por ali. A gente lutava pra chamar a atenção dele, pra ele sair com a gente: video-game não estava com nada! Hoje em dia, puxa vida! Não dá mais pra brincar de queimada na rua…

Recentemente visitei minha vó, que continua morando no mesmo apartamento, e passeei pela quadra. Percebi o quanto ela parecia menor. A amoreira continua dando amora, mas não tem por ali nem meia duzia de crianças. Aliás, essa faixa etária também parece que mudou. Antes a gente era criança até os treze, catorze. Hoje as meninas de dez já sabem até rebolar! Passam batom e esmalte escuro e ficam falando alto com seus fones no ouvido. Mascam um chiclete que parece não ter gosto há muito tempo e até dão uma piscadinha pros meninos (se bem que isso eu adoraria ter feito também).

A contemporaneidade nos trouxe uma violência abrupta: avassaladora! E como diz Cecília Meirelles, as grades do balaústre da varanda foram pra janela, pro portão e pra onde mais for preciso. A tecnologia nos invadiu. Nossa interação está restrita à internet e nossas brincadeiras limitam nossa imaginação.

“Levaram as grades da varanda
Por onde a casa se avistava.
As grades de prata.

Levaram a sombra dos limoeiros
Por onde rodavam arcos de música
E formigas ruivas.

Levaram a casa de telhado verde
Com suas grutas de conchas
E vidraças de flores foscas.

Levaram a dama e o seu velho piano
Que tocava, tocava, tocava
A pálida sonata.

Levaram as pálpebras dos antigos sonhos,
Deixaram somente a memória
E as lágrimas de agora.” Cecília Meirelles


Para Vygotsky, o desenvolvimento da criança ocorre ao longo da vida e que as funções psicológicas superiores são construídas ao longo dela. O sujeito não é ativo nem passivo: é interativo. Segundo ele, a criança usa as interações sociais como formas de acesso a informações e por isso aprendem a regra do jogo através dos outros e não como o resultado de um engajamento individual na solução de problemas. Assim, a criança aprende a regular seu comportamento pelas reações, quer elas pareçam agradáveis ou não. Sinceramente, não consigo entender como isso tudo se desenvolve numa criança contemporânea. Da “interação” tirou-se o inter e aglutinou-se àquilo que quer dizer navegar. Essa é a geração dos internautas. Navega-se pela internet, quando a curiosidade quase se resume a saber de fococas e da vida alheia. Tanto que até apareceu um tal BBB. Brother?! Hmm, talvez... Irmão?! “Não! Não sei o que é isso, não”. A globalização assolou também nossa língua!

Mas, voltando à perspectiva de Vygotsky, a brincadeira, o jogo, é uma atividade específica da infância, em que a criança recria a realidade usando sistemas simbólicos. Essa é uma atividade social, com contexto cultural e social. É uma atividade humana criadora, na qual imaginação, fantasia e realidade interagem na produção de novas possibilidades de interpretação, de expressão e de ação pelas crianças, assim como de novas formas de construir relações sociais com outros sujeitos, crianças e adultos. No entanto, a modernidade tem interferido nesta função criativa do brincar uma vez que as crianças têm optado por jogos tecnológicos e mecanizados.

Mas para que o Brincar seja mais eficaz na sua função de desenvolvimento subjetivo e objetivo da criança, não podemos perder de vista sua característica primordial e fundamental, que é a de dar o lugar da criança de sujeito, ou seja, permitir que ela possa criar e recriar situações e normas exercendo sua individualidade e se desenvolvendo com isso. E que a criatividade aflore, inclusive, na tentativa de se fazer ser sujeito mediante as circunstâncias atuais.