quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Uma proposta da Arte-educação para inclusão social do deficiente mental



Por Bianca Solléro

A deficiência mental refere-se a uma redução permanente da capacidade intelectual, em vários níveis, que compromete o comportamento adaptativo social. Neste estudo, importa que estas dificuldades em processar linguagens orais e escritas, focar ou entender informações mais complexas, comprometem a relação e a comunicação social. Para que isto não seja um problema mas, sim, uma possibilidade de interação com a diversidade, as relações sociais (e alguns paradigmas) devem ser aprimoradas em prol de um bem-estar comum: uma atitude de cidadania. Para tanto, o deficiente mental deve participar da sociedade como qualquer outro cidadão, estabelecendo relações que fomentem todo potencial dos indivíduos, assumindo suas limitações.

Neste contexto, a arte-educação apresenta-se como instrumento indispensável na formação de todos, visto que permite ao ser humano ampliar suas percepções de si e do mundo, criar novas soluções e novos sentidos e expressar-se com maior assertividade. Sendo assim, a arte-educação é facilitadora no processo de socialização especialmente nos casos de pessoas com deficiência mental.

Robson Xavier da Costa, sociólogo, estudou específicamente este assunto e considera que a arte-educação possibilita a “aquisição e o desenvolvimento de habilidades que favoreçam seu processo de integração sociocultural”(COSTA, 1995). No que diz respeito à Arte e Sociedade, verifica que “a dimensão global da arte possibilita que, por seu intermédio, diferentes dimensões humanas possam se expressar e ser investigadas” quando ao mesmo tempo “mundo psíquico e filosófico interrelacionam-se”. Sendo assim, “o trabalho com arte é capaz de transformá-lo [o deficiente] em um ser humano socialmente ativo, com uma auto-estima positiva e uma função social determinada” e, por isso “a arte poderá ser deflagradora do potencial latente em cada pessoa” (COSTA, 1995).

Uma experiência com uma criança portadora de deficiência mental de grau leve, pode comprovar este potencial da arte-educação. Esta criança será, neste relato, referida por JB.

JB tem epilepsia de pequeno mal com crises de ausência. Estas crises são diferentes daquelas que se conhece em senso comum, a convulsão motora. As crises de ausências são desconexões cerebrais que ocorrem por pequenos segundos ocasionando ao sujeito uma perda momentânea de consciência. Ao recuperá-la, após a crise, o sujeito sente algum tipo de desconforto físico. No caso de JB, este desconforto é expresso como “dor de barriga”.

A epilepsia de JB foi diagnosticada aos 3 anos de idade. Segundo relato dos médicos que acompanham seu caso, a partir do uso de medicamentos para este tratamento outras funções cognitivas ficaram compremetidas. É o caso de sua fala, leitura e escrita, bem como, seu raciocíno lógico, matemático e abstrato. Sendo assim, é válido ressaltar que sua deficiência intelectual advém desta sua condição.

O trabalho com artes plásticas durante quase cinco anos (dos 5 aos 10 anos de idade de JB) possibilitou à criança ampliar suas possibilidades de expressão, o que facilitou consequentemente seus meios de comunicação, logo sua interação social.

Para este projeto foi desenvolvido um material específico, denominado Abstrare. Este material reunia métodos e atividades que possibilitassem à criança um novo contato com o mundo externo e o estabelecimento de uma relação mais íntima e compreensiva com o mundo à sua volta, e era composto por jogos para o pensamento visual com blocos de madeira (baseado nas propostas de FURTH & WACHS, 1985), atividades de estimulação criativa através de imagens, músicas e leitura de poesias.

Inicialmente seus trabalhos apresentavam essencialmente imagens abstratas ou manchas de cores. Ao assistir vídeos de apresntações de grupos de dança e conhecer o trabalho de artistas plásticos que produziam obras abstratas, JB apresentou uma primeira transformação. Sua palheta de cores que era sistematicamente repetitiva, contendo apenas cores como marrom, vermelho, preto e branco, passou a conter também verde, azul, amarelo, laranja, dentre outros.


A predominância de trabalhos abstratos trazia a possibilidade de uma dificuldade de interação, haja vista que a abstração abre diversas possibilidades para interpretação, não sendo, então, considerada um modelo diretivo e assertivo de comunicação. Segundo Angela Philippini, imagens geradas a partir de borrões e manchas podem comunicar afetos esquecidos ou nunca experimentados (Philippini, 1994).

Os jogos com blocos de madeira possibilitavam uma nova experimentação sensória que instigava a percepção e o raciocínio, visto que as atividades eram baseadas na manipulação dos blocos com as mãos (inclusive de olhos fechados para adivinhar as formas geométricas apresentadas), na composição de cenas ou objetos com diferentes blocos e na observação e desenho deste esquemas construídos por ela. Como já dito, o objetivo era desenvolver estas funções, sendo importante, então, ressaltar que todos os seus desenhos eram aceitos, não sendo consideradas as falhas de observação ou as dificuldades e “erros” de representação.

Nas pinturas produzidas durante a aplicação deste projeto, JB, inicialmente, começou a ocupar todo o espaço da folha, preenchendo-o integralmente com cores e formas geométricas. Isto demonstrava o início de um processo de ampliação das suas possibilidades e, de certa maneira, sua aceitação por esta proposta.

Depois, passou a representar imagens figurativas e narrativas, o que demonstrou seu interesse por se fazer compreendida, e o desenvolvimento de sua capacidade de contextualização.


Continuando seu avanço, seu trabalhos passaram a apresentar maior variedade de personagens, incluido seu cuidado com detalhes de cenário, tais como árvores, flores, céu, sol.

Porém, é importante destacar que muitos outros trabalhos de JB permaneceram na abstração, o que possivelmente diz de seu estilo artístico e sua facilidade por expressar-se desta maneira. No entanto, o desenvolvimento de outras propostas e a ampliação de seu repertório plástico refletiram claramente em seu desenvolvimento social. Em primeiro lugar JB passou a cuidar melhor de seu corpo, entendo suas necessidades e assumindo noções de higiene. Com isso, passou a se relacionar mais assertivamente com sua família, sabendo falar melhor sobre suas vontades e respeitando sua próprias limitações. Por exemplo, passou a observar e a lembrar o horário de seus remédios. Seus trabalhos passaram a ser assinados, e ela tinha orgulho em mostrar o que havia feito. Talvez por isso, um relfexo também na escola, quando observou-se que, durante este projeto, JB deu saltos em sua aprendizagem, melhorando sua leitura e escrita.

Sendo assim, este exemplo ajuda a compreender e a comprovar os benefícios trazidos para o deficiente mental através dos trabalhos com artes plásticas, nos âmbitos, físicos, pessoais e sociais.

Referências bibliográficas:

COSTA, R. X. A socialização do doente mental atravéz da arte. Revista integração (1995). Acesso em universoneo.com.br

FURTH, H.G. & WACHS, H. Piaget na prática escolar. São Paulo: Ibrasa, 1979.

PHILIPPINI, A. Arteterapia, um caminho. In: Imagens da transformação. Belo Horizonte: LuzAzul, 1994.

sábado, 18 de setembro de 2010

O Corpo Simbólico


O resfriado escorre quando o corpo não chora.
A dor de garganta entope quando não é possível comunicar as aflições.
O estômago arde quando as raivas não conseguem sair.
O diabetes invade quando a solidão dói.
O corpo engorda quando a insatisfação aperta.
A dor de cabeça deprime quando as duvidas aumentam.
O coração desiste quando o sentido da vida parece terminar.

A alergia aparece quando o perfeccionismo fica intolerável.
As unhas quebram quando as defesas ficam ameaçadas.
O peito aperta quando o orgulho escraviza.
A pressão sobe quando o medo aprisiona.
As neuroses paralisam quando a “criança interna” tiraniza.

A febre esquenta quando as defesas detonam as fronteiras da imunidade.
(autor desconhecido)

Grupo do projeto de pesquisa em Arteterapia Organizacional
apresenta o trabalho sobre "O corpo simbólico"


Nosso corpo guarda todas as nossas experiências de forma simbólica.

Durante o processo arteterapêutico, captamos de nossa mente imagens, cores, formas, símbolos que, para Jung, podem dizer de desejos, projetos ou até mesmo sintomas.

Estudos sobre doenças psicossomáticas têm se destacado neste século XXI, enquanto a contemporaneidade parece admitir o ser humano como uma totalidade, uma integração entre Mente e Corpo.

O trabalho feito com rótulos refere-se às diversas marcas
(visíveis ou não, conscientes ou inconscientes) do nosso "corpo simbólico"


A Arteterapia apresenta-se, então, como uma ferramenta valiosa no processo de leitura simbólica de nosso corpo: do que ele nos transmite em dores, calafrios, doenças, emoções. A partir desta leitura as pessoas compreendem a responsabilidade de suas ações e escolhas com relação à sua própria saude. Para além disso, concientizam-se de sua integração com toda a natureza e o ambiente a sua volta, transformando seu modo de agir com atitudes mais assertivas, cidadãs e saudáveis.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

A Árvore do Saber


Era uma vez uma árvore, que
Produzia o seu próprio alimento,
E passou a ensinar os seus frutos,
A produzirem o deles para
Terem o seu próprio sustento.
Alguns não queriam
Aproveitar os nutrientes,
Outros aproveitavam tudo,
O que a árvore lhes fornecia,
E fortaleciam as suas sementes.
O fruto que não quer amadurecer
Simplesmente apodrece,
E aquele que vai ficando maduro,
Ele cresce e se transforma
Numa árvore chamada mestre.

Recebi este poema do aluno Nicolas Vescovi na ocasião da minha despedida do Colégio Cotemig.
Agradeço a ele pelo seu carinho e a todos os outros queridos alunos, que me fizeram ir além, sonhar mais e saber mais, tendo, com isso, alimentado minhas esperanças pela Educação no Brasil! Que sejam todos grandes homens e grandes mulheres e que nos tragam bons frutos!

Com um coração cheio de saudade, carinho e amor...
Bianca